quarta-feira, 1 de abril de 2020

Que país mais roubado é esse?

A dívida interna do Brasil está em R$ 4,3 tri e compromete a metade do orçamento federal. Essa dívida quase nunca envolve dinheiro novo, mas sim rolagem da dívida, ou seja, pagamento dd juros e amortizações. Com todo sacrifício e espoliação das burras brasileiras, a dívida cresce. Ora, onde já se viu devedor dar (o verbo é esse) dinheiro a credor? É o que está, literalmente, se dando agora. A União vai dar R$ 1,2 TRI pros bancos. Nem ao menos exigir o desconto de 25 a 30 por cento da dívida da União, correspondente ao valor doado, o fizeram. Que país mais roubado é esse!

quinta-feira, 26 de março de 2020

A lógica da volta ao trabalho

Há uma lógica que explica estar o capital tão desesperado pra que as pessoas voltem a trabalhar  É que, sem usufruir do trabalho alheio, a mais valia, o capital não vale absolutamente de nada. Quem faz o mundo funcionar é o povo que precisa entender sua real grandeza.

domingo, 13 de outubro de 2019

Dê na farinha também, moço!

O barulho do motor foi-se chegando aos confins do Belmonte. Coisa bem diferente pro povinho dali, acostumado de só escutar berro de bode, mugido de gado, rosnar de jumento, canto de rolinha e barulhos de mais viventes das caatingas do Piauhy. Uns até se esconderam temendo premoniçao trazida das profundezas. Outros, afoitos, foram espiar desconfiados, o moço fino descer do jeep 51, logo baixou a poeira. Sorriso largo, o moço indagou inquisitório do Capitão.
- Capitão Raimundo, tá me esperando? Senhor sim, mais ele chega.
Menos verdade não era, o Capitão vinha camihando das bandas do açude num passo de molejo lento. Fez pelo sinal no passar o cemitério branco onde estavam depositados dois filhos e dirigiu-se ao moço.
- Pois não, sim Senhor, Seu moço. 
- Honra em lhe conhecer Capitão!.
Sob às vistas do Capitão, o moço curioso passeou as barbas ralas nos aposentos da fazenda. Serviu-se do banheiro, notou os apetrechos de vaqueiros escanchados nos troncos de carnaubeiras da sala de visita; observou os nichos no alto da parede onde o capitão salvava os venenos e remédios do gado e de picada de cobra ainda com cheiro de creolina, andou pela sala de tijolo envernizada do uso, visitou a cozinha de fogão de lenha, curiou os caixões de aroeira onde o capitão guardava farinha e arroz colhidos na Pedra Branca, fazenda no pé-de-serra da Ibiapaba.
Depois subiu a escada em caracol, descortinou de cima a serra Grande, o açude e, em todo o derredor, a caatinga sobrançeira. Então desceu e no caramanchão velho ao lado, viu um bode espichado de cabeça pra baixo pingando sangue na bacia de aluminio. Ao seu lado um caboclo tirava o couro do animal forçando com punho cerrado, o que antes tinha se iniciado com faca afiada.
- É pro almoço, Seu moço.
Mas da vistoria, atentou mesmo foi pras muitas sacas de cera de carnaúba dispostas no armazém e na sala de espera. Amarelas, vistosas vê barras de ouro, não fora a irregularidade dos cacos.
E se serviu, sôfrego, no almoço da carne do bode que viu espichado, a tal ponto que o Capitão, fugindo das filigranas diplomáticas, lhe advertiu:
- Dê na farinha também, moço.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Evito ler o que escrevo

pois se leio, mudo. Daí á vantagem de se ter um blog. Muda-se quando se ler. Uma vez fui ver à biblioteca doada por José Mindlim à USP. Direto, queria ter nas mãos o livro escrito e todo rabiscado do Graciliano Ramos - pra mim, o maior eacritor brasileiro -  que deu origem à Vidas Secas. Até o título o Graça alterou. Era O Mundo Coberto de Penas. A secretária era cearense, Feitosa dos Inhamúns, mas me disse que o livro estava em manutenção e, pra não me deixar triste, me deu um livro sobre as publicações da USP.

Meus avós - apontamentos

Certo ano, deve ter sido por volta de 1925, meus avós, Raimundo Inácio de Aguiar e Maria Elias França de Aguiar, voltaram do Amazonas e se arrancharam nas brenhas do Pihauy, onde compraram e se apossaram de muita terra  quente de pedra, areia e carnaubeira.

Minha mãe, Aldenora, nasceu em 1920, no lugarejo onde hoje é a cidade  de Feijó, no Acre. Nas cercanias da foz do rio Envira, tinha um barracão de irmãos de meu avô e ele, por ali, foi seringueiro.

Quando veio do Amazonas, trazida pelos meus avós, acompanhada  do filho mais velho, Epaminondas, mamãe era menina.  Minha avó voltava grávida, sacolejando enjoada na viagem de barco. Logo depois da viagem, deu a luz a um outro filho, Gerardo, num lugarejo Trapiá, perto do Aprazível, próximo a Sobral.

Meu avô devia de ser amigo de um sujeito rico de Sobral que tinha um casarão de três pavimentos à margem da BR 222, próximo ao riacho Sabonete, à esquerda de quem vai  de Sobral pra  Forquilha, ainda hoje muito bem conservado. Meu amigo, Zé Ivo do Sobral, conhece bem o casarão, embora me tenha dito que nunca adentrou nele, como o fiz, abismado uma vez, mais minha irmã, Sonia.

Pois bem, meu avô dizia que se inspirou naquele casarão pra edificar, em 1948, a casa grande sede da Fazenda Belmonte, sitiada no carnaubal que lhe falei. Até uma cachacinha ele fazia no alambique que tinha no armazém da frente, aproveitando a frescura das terras da revença do açude que construiu.

A cachaça Indiana tinha rótulo bonito e gosto forte de queimar a goela de sujeito inexperiente no trato. Ainda tomei umas bicadas da Indiana, garrafa oferecida de bom gosto por Antonio, filho do Seu Aureliano, amigo de meu avô, em Piripiri, Piauí, com Lincoln do Araxá das Minas Gerais, esposo da minha tia Walda, quando do sétimo dia de falecimento de minha avó, dona Mocinha.

O riacho Sabonete de Sobral

O riacho Sabonete, ninguém dá nada por ele, não, mas é um ente forte e impetuoso, quando quer e pode. Uma vez, minha mãe, Aldenora, voltando â noite do Piauí pela Expresso de Luxo dos irmãos Joca, encontrou o riacho Sabonete em conluio com a estrada BR 22. Passava grosso de um lado a outro, quando o desinfeliz do motorista resolveu afrontá-lo.

Pois bem, o chaufer, inexperiente no trato de riacho nordestino, pisou na tábua da Expresso de Luxo pra varar o riacho Sabonete, mas a correnteza do danado respostou e entortou o ônibus jogando-o pendurado na ribanceira. Duas mocinhas apavoradas sairam do ônibus e foram arrastadas pelas águas salvando-se enganchadas nas moitas do riacho. Passaram-se horas até que o Sabonete baixasse e os demais passageiros pudessem sair do ônibus.

Que riacho danado esse riacho Sabonete de Forquilha, onde Amilcar e Zé Ivo se banharam!