sábado, 8 de dezembro de 2012

Montaigne: "Abandona-se à sua paixão quem não pode seguir à razão".


Não sei dar-me por inteiro, e  quando minha vontade me induz a optar por um partido não crio obrigações que contagiem meu entendimento. Nas agitações que perturbam atualmente o país, meus interesses não me fazem desprezar as qualidades louváveis de meus adversários, nem ignorar os defeitos de meus correligionários. Em geral adoram tudo o que fazem os seus; eu não desculpo sequer a a maior parte do que perpetram os meus; uma obra não perde seus méritos só porque foi escrita contra mim. Salvo quanto à razão essencial do debate (pois sou e continuarei católico), mantenho-me equânime e indiferente: fora das exigências da guerra, não desejo nenhum mal a meus inimigos. E com isso me alegro, pois vejo comumente assumirem atitude oposta: “abandona-se à sua paixão quem não pode seguir à razão”. Os que estendem seu ódio além da causa que o motiva, como costumam fazer os homens, mostram que defendem outra coisa e por razões de ordem pessoal. Assim quando a febre persiste após a cura de uma úlcera, tem-se a prova de que outra é a sua origem. Não se rebelam contra a causa porque ofende os interesses coletivos e do Estado, mas sim porque prejudica os seus próprios. Daí a animosidade pessoal, que ultrapassa o que normalmente se entende por justiça. “Não concordavam todos em censurar todas as coisas, mas cada qual censurava o que o interessava pessoalmente,” Eu desejo ganhar mas não perco o juízo se assim não ocorre. Ligo-me ao partido que sinceramente julgo o melhor, mas não procuro mostrar-me especialmente inimigo dos outros e não ultrapasso o que a razão determina.

Michel Eyquem de Montaigne, político, filosofo, escritor e ensaísta francês  (28.02.1533  - 13.09.1592)
Trecho extraído da obra Os pensadores. Montaigne. Tradução de Sérgio Milliet. Ed. Nova Cultural Ltda., 1996, SP. Volume II, p. 313

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